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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

sede


Mais do que é saudável, rodeamo-nos muitas vezes de pessoas erradas, estéreis, que amarram em nós, com fio grosso, o enxerto da vileza e da superficialidade. Que nos abrem a pele em sulcos por onde arrancam o que de pior temos. Impulsivamente, atribuímos a culpa a erro de casting. Mas é pior: a culpa é nossa e a inspiração não deveria vir-nos do drama amador e mal escrito de teatro de bairro, mas sim dos episódios honestos da vida selvagem. Trazemos as feridas demasiado abertas e já devíamos saber que é da índole dos tubarões perseguir o cheiro a sangue. Em extremo, somos aqueles que, na sua jornada, vislumbram entre a multidão que assiste à nossa passagem apenas um ou dois rostos capazes de nos oferecer água.

bso Precious by Depeche Mode

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

má construção


Se o mundo é obra de Deus, então Deus é um pato bravo. E dos aldrabões. A obra não deveria ter sido licenciada, desde já pelos erros crassos revelados pelos projectos de engenharia e arquitectura logo à partida. Mas Deus tem conhecimentos e cultiva a troca de favores. Na certeza de não ser embargada, cedo a obra começou a mostrar as suas fragilidades: fundações erguidas sobre solo arenoso, mau cimento, a canalização e a instalação eléctrica a denunciarem a utilização de material de quinta categoria. Acabamentos manhosos. Trabalhadores descontentes com a cruel chefia, perita em minar qualquer iniciativa ou camaradagem. E, claro, o mau gosto desconcertante de quem pauta a vida pelas aparências. As fracções vendem-se bem, apesar de tudo. A verdade é que todos querem um lugar no mundo e os tempos não estão para grandes exigências. De vez em quando, esta obra e o personagem caricato que a pensou são notícia de primeira página, quer nos jornais de referência, quer nas revistas cor de rosa. Escândalos financeiros, rumores de homossexualidade, permanente ameaça de implosão por parte das autoridades competentes com vista a cumprir as novas leis de preservação paisagística e outras manchetes bombásticas. Mas nada acontece. O mundo veio para ficar. E nós, inquilinos titubeantes ou proprietários claudicantes, reclamamos, mas engolimos. E todos os meses, impreterivelmente, pagamos o condomínio.

bso Monkey gone to heaven by Pixies