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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

blá blá blá


A existir um lado divertido na insanidade dita ligeira é o falarmos sozinhos. Em monólogo, fazendo duas vozes de um diálogo intenso, ou mesmo o coro de uma batalha verbal. E sermos apanhados. O mundo a fingir não deveria envergonhar-nos.

bso Speaking in tongues by Sheila Chandra

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

em palco


Conversa em cenário escarlate:

“Aproxima-te. Mal posso esperar que este espaço entre nós se encha de carícias que separem as águas do mar da minha pele.”
“Que palavras de assombro! Que olhar, esse! Caminho para ti e o amor cresce. Estes passos são já gestos prenhes de intenções”.
“Que bom é tocar-te. Abraça-me. Liberta-me desta mortalidade. Este amor instila em nós o sopro de uma raça divina. Poderosa, imensa. Que os deuses nos perdoem por assim os humilharmos na sua inutilidade”.
“Que vontade de pecar! Se os deuses se sentirem ofendidos com este amor terreno e carnal, preparam certamente a nossa punição e ela será terrível!”
“ Ou então, orgulhosos destes dois mortais que ambicionam igualá-los, conceder-nos-ão a graça de viver em pleno pela vida fora".
"Nada receemos. E não permitamos que estes pensamentos nos ensombrem o desejo. Esta é a hora em que somos criaturas sem criador”.

bso The dancer by PJ Harvey

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

pilhérias


Acordamos.

“Tenho a boca a saber a sal”.

“ Sim, a vida pode ser como uma paisagem de salinas, erma, monótona, desoladora na brancura da sua solidão. Nem o brilho dos cristais sob a varinha de condão do sol nos parece oferecer qualquer promessa redentora, qualquer possibilidade de brilho”.

“E como acontece com a comida demasiado salgada, bebemos água e vinho para minorar os efeitos. Ainda que a custo, comemos o que está no prato.”

“Para não fazer a desfeita a alguém?”

“Isso. Ou porque de qualquer forma temos de alimentar-nos. Ou porque nos lembramos, com um aperto no coração, que há muitos que passam fome.”

“Ou porque nós próprios já passámos fome também”.

“Também. Não há nada como as más memórias para nos dar a ilusão de que nunca mais cometeremos os mesmos erros.”

“ Bom, esperemos que o dia seja pequeno e ameno. E que, de alguma forma, as horas te sejam benevolentes”.

“Assim seja”.

bso The Nomi song by Klaus Nomi

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

fuga


Sento-me calmamente, de frente para o meu passado. "Precisamos de terminar a nossa conversa", digo-lhe. "Temos de pôr fim a este ajuste de contas que trazemos pendente há já algum tempo". A princípio, aflito como uma criança que fez asneira, vai-me ouvindo. Culpo-o, recrimino-o, ameaço castigá-lo. Aí, humilhado pela minha zanga, adopta a arrogância e a malvadez do patife apanhado em flagrante. "Basta!", grito-lhe. Assustado, foge. O meu passado é um desertor. E eu, como um guarda prisional complacente, permito-lhe a fuga, não dou o alarme e, por entre um sorriso, agradeço secretamente o que fez pela minha vida.

bso Running to stand still by U2