segunda-feira, 15 de junho de 2009

exaustão


Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

bso Blind by Hercules and Love Affair

segunda-feira, 18 de maio de 2009

emboscada


Neste fim-de-semana, os meus cinco sentidos tiranos, que habitualmente se recusam a trabalhar em conjunto, confabularam para me fazer feliz e satisfazer-me o capricho da tranquilidade, o luxo da paz. Houve música cantada por nós, sabores de bebidas loucas, morangos, a tua pele sempre por perto para eu tocar e os teus olhos repousados em mim para eu poder olhar para dentro deles. E o perfume foi o das mais doces evocações. Quanto ao sexto sentido, diz-me que no dia em que partires a MPB terá mudado para sempre.

bso Por toda a minha vida por Elis Regina

domingo, 10 de maio de 2009

misérias


Não adianta insistir na credulidade. O mundo será sempre mundo e as pessoas serão sempre pessoas, sem transcendências. Eu? Serei naturalmente a mesma idiota de sempre.

bso Hurt by Mísia

sexta-feira, 8 de maio de 2009

pedagogia


Ninguém nasce ensinado para o corpo do outro. No entanto, através de um ensino generoso e de uma aprendizagem deliciosa, poderá chegar-se à excelência.

bso Strange kind of love by Peter Murphy

quarta-feira, 6 de maio de 2009

bastidores


Não vou mentir, os meus olhos continuam tristes. Por isso me escondo. Quem sabe ver-te pudesse substituir a cosmética?

bso Hearing the time by Eleni Karaindrou

segunda-feira, 4 de maio de 2009

hipócritas e parasitas


Estou à beira do colapso. Talvez como castigo pela debilidade das minhas respostas. Comigo, até a revolta é anémica.

bso My way by Sid Vicious

sábado, 2 de maio de 2009

sem o instinto do ninho


Logo pela manhã, no trajecto de uma hora de autocarro, ouço uma sucessão de telefonemas da passageira sentada atrás de mim. Sem sequer lhe ver o rosto, percebo os contornos da sua vida e consigo fazer-lhe o esboço. Chamada de trabalho: palavras como relatório, auditoria, despesa elegível ou ofício arrancam-me à força do congelamento do sono; chamada da dona de casa, combinando arrumações e arranjos com a mulher-a-dias; chamada da esposa que acerta com o marido detalhes da mudança de casa agendada para o fim de semana seguinte; chamadas da mãe, uma para a educadora do filho, partilhando a preocupação dos efeitos da mudança de casa na criança e outra para a mãe de um amiguinho combinando uma festa de aniversário; chamada da mulher vaidosa e mundana para a loja onde deixou encomendado um vestido que ficou a apertar; chamada da mulher saudável para a sua médica, prometendo que lhe levará com a maior brevidade possível os resultados dos exames para analisar e agradecendo-lhe a dieta prescrita, cujos resultados são bastante satisfatórios e visíveis; chamada da filha, que aconselha o pai a não se deixar abater só porque descobriu que tem bicos de papagaio; chamada da colega solícita, que marca uma mesa num restaurante para a despedida de um colega de trabalho; de seguida, mais umas quantas chamadas para tentar harmonizar as contribuições para a prenda conjunta a oferecer ao demissionário. A viagem acaba e a mulher continua ao telefone. Levantando-me, posso agora olhá-la: deverá ter a minha idade. Sai à minha frente em passo apressado e eu vejo-a afastar-se gesticulando. A única coisa que consegui pensar durante todo aquele tempo, na antecâmara da minha entrada diária no mundo, foi que teria sido muito bom não me ter levantado tão cedo. Ou que mataria por um café.

bso Family tree by TV on the Radio

sexta-feira, 24 de abril de 2009

festim


Perturba-me sobremaneira a cabotinice dos que se auto-elogiam, dos que puxam de galões insignificantes e que insistem, por vezes de enviesadas formas, em conversas que apenas têm como finalidade chamar a atenção sobre si e para predicados que mais ninguém vê. Este jogo infecundo traz naturalmente consigo uma bateria de expressões ocas, que nada querem dizer para além da intenção que nelas se põe. Uma delas, que hoje me feriu na sua pretensão de evidenciar a objectividade, a singeleza, a rectidão de quem tão seguramente a evocava é "Eu cá sou pão pão, queijo queijo". Pobre criatura incompleta. Então e o vinho?

bso History of the insipid by Michael Nyman

a data e o seu contrário


Liberdade, soberania do povo, direitos, progresso, evolução das mentalidades. A enumeração importa menos do que a lista das compras. Os fantasmas do passado continuam a fazer-nos companhia, instilando-nos a saudade de quando não tínhamos o trabalho e a responsabilidade de escolher. Continuamos a elegê-los, a eles, aos que deviam ter aprendido com a mudança, mas que insistem no apego às velhas cartilhas. Este país é um hotel assombrado à espera que alguma mão de instinto purificador lhe deite fogo.

bso Avril au Portugal par Georges Moustaki

terça-feira, 21 de abril de 2009

now what?


A noção de passatempo intriga-me. Não é estranho que a forma de gozarmos os tempos livres seja ver o tempo passar? Ausentamo-nos das preocupações, libertamos o espírito e procuramos o prazer na mesma dimensão do resto: a dos relógios que avançam inexoravelmente a um ritmo que, por muito que queiramos, nunca é diferente.

bso Photographic Memories by Ennio Morricone

segunda-feira, 20 de abril de 2009

bizarrias


Durante o dia, a cacofonia, os ruídos desarranjados da cidade. Como numa orquestra mal dirigida de instrumentos dissidentes, os sons ofendem. Depois, quando o silêncio deveria ser conforto e melopeia, a bizarria: a noite é um enorme tambor chinês a rufar dentro da minha cabeça. Ao jeito de espectáculo de prestidigitação, criando efeito de suspense, a preparar a surpresa que a manhã seguinte sempre me reserva. Quando o passe de mágica acontece, o coelho que sai da cartola vem invariavelmente morto.

bso Taya Tan by Pink Martini

sábado, 18 de abril de 2009

long gone


Ontem falou-se de ti e não me lembrei que dia seria hoje. Só esta manhã a data se impôs. Por isso, a ti, o único que não me pode ler, feliz aniversário.

bso Nessun Dorma from Turandot by Giacomo Puccini

quinta-feira, 16 de abril de 2009

medusa


Resumo da ópera em cartaz durante toda a semana: quando se cria o monstro, não é possível livrarmo-nos dele. Fim de drama.

bso Fake empire by The National

quarta-feira, 15 de abril de 2009

antigamente


Chove em Abril e já não sabemos se deve ser realmente assim, se era assim ou desde quando deixou de ser assim. Já nada é como antigamente, diz quem se lembra da anterior ordem das coisas. O clima, a paisagem,as pessoas. A vida, enfim. E a verdade é como uma retrete pública: limpa-se à noitinha para voltar a sujar-se pela manhã.

bso This mess we're in by PJ Harvey & Thom Yorke

sábado, 11 de abril de 2009

a praga que cada um merece


O medo de que o céu nos caia em cima é um atavismo vindo do tempo das tempestades imensas que não sabíamos explicar. Se tal acontecesse deveras, o chão perderia também o seu significado. E quando o tecto nos cai literalmente em cima da cabeça? Verificam-se os receios antigos, sentimo-nos à deriva e perdemos o pouco sentido de segurança que nos resta. Nesta época não é estranho evocar, a par de traições e delações já mencionadas, o aviso dos castigos sobrenaturais. Tenho tido as minhas pragas de insectos sob a forma de vitupérios. É certo que não tenho gado nem filho primogénito para matar, mas o meu sangue talha e a frágil esperança gela. Não sou egípcia nem judia e gostava que a compensação pelos bons gestos não conhecesse pátria. E, já agora, que a consequência da maldade não fosse terra de ninguém.

bso Un bel di vedremo from Madama Butterfly by Giacomo Puccini

longe da vista


Do teu corpo só lembro os contornos, os limites. Esqueci-lhe a massa, a densidade, o que nele me faz despertar o delírio. E se regressasses para que a memória volte a ser grata?

bso Por una cabeza by Carlos Gardel

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ritual


A Páscoa é a depressão instalada deste lado do mundo, o da dita cristandade. Ambiente propício a considerações sobre a passagem, o renascimento e a renovação, para quem insiste na fé. Dias que lembram a traição e quem se vende por um punhado de moedas, digo eu, incrédula. Quem me dera o outro lado do mundo, onde os calendários são mais benevolentes.

bso One by U2

quarta-feira, 8 de abril de 2009

modo de preparação


Primeiro perde-se o pé. Depois, no redemoinho, o corpo é sacudido de um lado para o outro, como se se desmembrasse. Em seguida, a onda de mal estar atira-nos os pedaços para o local onde tentaremos, atabalhoadamente, recompor os cacos. A dor enforma os ingredientes. O resultado, pouco digno de ser mostrado, não varia. A natureza humana - podre - segue sempre a mesma receita.

bso Prisons by Silent Poets

domingo, 5 de abril de 2009

idades


Há algo da minha vida nesta praia que hoje revisito, em romaria da memória. As rochas são as mesmas. A areia compõe-se dos mesmos minerais, mas em menor substância. A dança perpétua e insinuante das marés traz luas mais felizes que outras. E a inevitável erosão imprime à paisagem a fina tela da descoloração e do desbotamento. O destino não faz visitas anunciadas ao domicílio, aparece-nos de surpresa ao fim de uma estrada, em domingos de tédio.

bso Sea swallow me by Cocteau Twins

quarta-feira, 1 de abril de 2009

sortilégio


Sou abordada na rua pela cigana que tenta vender "óculos, menina?", "carteiras e lenços lindos". Não, obrigada. "Pode, ao menos, falar com a cigana? A cigana diz-lhe que precisa de muita sorte". Aí, estaco. "Tem para vender? Não?..." Quando viro costas, ouço cair atrás de mim, neste glamouroso dia de sol, uma chuva de insultos que esbarra na minha impermeabilidade não sazonal.

bso There is a light that never goes out by The Smiths